REVISITANDO “AS PEGADAS DE ALICE”

sea beach footprint steps
Photo by Jaymantri on Pexels.com

Há quase onze anos atrás, eu defendia minha dissertação “Nas pegadas de Alice: metáforas do ciberespaço”, na UFMS sob a orientação do professor doutor Edgar César Nolasco. O escopo do meu trabalho era estudar alguns dos fenômenos/processos que eu julgava ver na internet naqueles tempos. A partir da visão de Pierre Lévy sobre ciberespaço e comparando essa visão com o conceito de rizoma formulado pela dupla Deleuze-Guattari, procurei apontar fenômenos que acredita existirem no ciberespaço.

À época do estudo, 2005 a 2007, bilhões de páginas já existiam na internet, compondo um tecido textual tetradimensional, pois suas escrituras ultrapassavam o nosso conceito do tempo (muitas vezes era comum não precisar em que momento o texto era recriado). O princípio da autoria, já amplamente contestado no mundo da escrita impressa, atinge, no contexto do ciberespaço, a plenitude de sua dissolução, formando o que Pierry Lévy intuiu como uma “inteligência coletiva”. Em países como o Brasil, ainda não estávamos tão ligados às redes sociais e o mais comum era ver adolescentes desenvolvendo “blogs” autorais usados como forma de publicizar seu cotidiano (esses blogs talvez tenham sido a semente dos “youtubers”, mas isso é assunto para outro artigo).

Com a afirmação das redes sociais e a tão propalada marca de um bilhão de usuários do “Facebook”, as redes sociais ganham novo status no contexto do ciberespaço. Se o ciberespaço, nas suas primeiras décadas, era constituído basicamente de um conjunto de computadores dotados de conexão e um navegador web, esse conceito muda radicalmente com o surgimento do smartphone. Esse dispositivo, verdadeiro devorador de aparelhos tecnológicos aglutina (e torna dispensável) câmaras ‑ filmadoras e fotográficas, calculadora, GPS, bloco de notas, relógio de pulso, televisão, rádio e outros tantos aparelhos, além do próprio PC, reinante soberano na década anterior. Contudo, no acesso ao ciberespaço, o antes essencial navegador web, passa apenas a ser mais um aplicativo, ou simplesmente “app” do pequeno aparelho. O smartphone introduz o conceito “app” em lugar ao conceito anterior de programa/aplicativo e fragmenta o ciberespaço conectando o aparelho direto a cada app para desempenhar uma determinada função. Assim, usuários do Facebook não precisam mais acessar um navegador como por exemplo o Internet Explorer ou Google Chrome, digitar a url do website e etc. Com o smartphone o internauta utiliza direto um app específico instalado previamente em seu aparelho onde já estão memorizadas os dados de sua conta. Assim, todo o processo de navegação e acesso ao serviço do Facebook torna-se totalmente transparente ao usuário e este, ao invés de “navegar” como o fazia a geração anterior de internautas, apenas “acessa” o serviço convivendo muito menos com o conjunto do ciberespaço. E a coisa piora, pois milhões (bilhões?) de usuários colocam voluntariamente suas informações pessoais nesses aplicativos de modo a gerarem números incalculáveis de metadados que deixam a população à mercê dos grandes capitalistas e corporações.

Essa percepção gerou um conhecido artigo do pesquisador Tim Berns Lee, conhecido mundialmente por ser um dos criadores do protocolo IP, que tornou possível a criação da internet tal qual a conhecemos hoje (não por acaso ele é considerado “o pai da internet”). Esse artigo aponta o perigo da redução da condição do internauta, uma espécie de cidadão da internet a mero usuário, ou pior, “consumidor” de alguns serviços específicos e não mais da grande rede.

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As portas do ciberespaço estão ficado cada vez mais escondidas. Ilustração de Sir John Tenniel.

Se os app contribuíram para a hegemonia das redes sociais, eclipsando o próprio ciberespaço, enquanto meios de comunicação e informação de massa, outra séria questão envolvendo as redes sociais aparece em meados desta década. Se como observou Lévy ainda nos anos 1990, a internet construía um tecido sócio textual revelando a “inteligência coletiva”, essa “inteligência” tenderia a ficar muito mais evidente na interação direta proporcionada nas redes, desde que considerássemos todas as manifestações nessas redes como manifestações humanas. Contudo não é o que ocorre atualmente. As redes sociais, longe de serem neutras, atuam como influenciadoras de opinião em vários níveis. Seja agrupando semanticamente os seus usuários, seja com a invasão de usuários virtuais, os “robôs” de modo a inflar ou provocar novas tendências de opinião. Famoso a partir dos anos 1940 com a propagação do sci-fi norte americano, o termo “robô” tornou-se fetiche. Eventualmente bondoso e amigo, mas principalmente vilão, o robô entrou para o imaginário social como uma ameaça em potencial ao futuro da humanidade. Não por acaso, é no ciberespaço que esse termo ganha expressão e maturidade. Robôs no ciberespaço são programas de computador dotados de algum nível de inteligência artificial que lhes permita propagar algum tipo de mensagem ou realizar tarefas repetitivas em escala massiva. Assim, já não há como saber quantos dos tais “um bilhão” de usuários do Facebook, ou de qualquer outra rede social, são humanos ou apenas código de máquinal.

Chegamos portanto em 2018 com novas significações ao ciberespaço e a própria cibercultura. Deixamos o período do romantismo de Lévy sobre o ciberespaço e entramos em um território incerto, dominado por causas quase sempre não aparentes, onde as proposições e o próprio sentido do que é veiculado e discutido fica comprometido.

Como diria Morpheus: “Bem vindo ao deserto do real”.

Falamos sobre:

LÉVY, P. O que é Virtual? Rio de Janeiro: Editora 34, 1996.

LÉVY, P. As tecnologias da Inteligência. Rio de Janeiro: Editora 34, 1997.

LIMA. ELF. Nas pegadas de Alice: metáforas do ciberespaço. Dissertação de mestrado disponível em http://www.openthesis.org/documents/Nas-pegadas-de-Alice-do-362591.html.

Tim Berners-Lee https://tek.sapo.pt/noticias/internet/artigos/pai-da-world-wide-web-diz-que-a-internet-esta-em-perigo.

 

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