Altas literaturas

É de Leyla Perrone-Moisés um livro com o título desse artigo (1998). Professora universitária e estudiosa em literatura, nesse obra a pesquisadora descreve o cenário em que o contexto histórico e social nas novas gerações de escritores, as levariam a uma linguagem apartada da compreensão do leitor médio. Mais que isso, essa grande massa de leitores já há bom tempo teria se transformado em consumidores de outras mídias, transformando-as nas linguagens narrativas da virada do século.

Indo um pouco mais adiante, pode-se supor também que o outrora “desocupado leitor” de Quixote, está hoje mais interessado nos espaços virtuais oferecidos por telas de todos os tipos. Com efeito, há bom tempo temos uma escalada de filmes caríssimos onde o movimento é geralmente mais importante que o argumento.

Tratando-se de estímulos à leitura, este primeiro quarto de século, a partir do ciberespaço, é rico em exemplos. Redes sociais, comunicadores (whats-up, telegram etc.) onde o império da escrita ainda domina, embora constantemente assediado por áudios, vídeos e fotos. A constante interação entre pessoas, agora travestidos de usuários, mostra que o mundo continua social,   tudo é motivo para agrupar indivíduos (reais ou não). Facebook,Twitter, Second Life, Google, Waze, criam narrativas paralelas ou periféricas à realidade. Mas nem é preciso rever a Sartre para perceber que o inferno continua sendo os outros. Tecnologia versus estranhamento geram um coletivo de solitários, em seu maior paradoxo. Junte-se isso ao clima distópico característico destes tempos e o resultado parece ser uma superlativação da previsão de Andy Warhol sobre o sucesso imediato e efêmero.

Restaria, segundo Leyla, aos escritores a sina de buscarem o distanciamento da mediocridade reinante, tornando-se assim suas escritas ininteligíveis ao grande público que, de resto, teria mais o que fazer, não estando tão disponível quanto os leitores de Cervantes.

Roubo a expressão de Hobsbawm para reafirmar que estes são mesmo Tempos Interessantes. Os processos de edição e publicação de livros digitais simplificaram o caminho que separa uma pessoa comum de um autor de livros publicados. Isso não garante nem sucesso e muito menos qualidade, mas permite a um novo contingente de pessoas o acesso à publicação de livros. Algo jamais imaginado pela maioria. Há uma nova geração de pessoas que, ao gravitarem no ciberespaço, convivem com essas tecnologias sem estranhamento.

Livros digitais e impressos, títulos às dezenas de milhares, lotam livrarias e websites. Com eles gravitam uma massa de leitores (raramente “massa crítica”, mas vá la…) a procurar livros de digestão fácil, geralmente distantes de cânones do passado, embora estes, “reencarnem” seja em livros ou em best sellers de moda.

Voltando aos tempos interessantes, julgo-os assim pele seu caráter de trânsito constante. Temos mais leitores, ainda que superficiais. E mais gente que escreve (ainda que apenas literatura de consumo). Sendo assim, é preciso sonhar com algum otimismo, que dessa miríade de leitores surja a tão sonhada massa crítica e que entre a constelação de novos escritores, consigamos superar os clichês de sempre. A tecnologia, feito esfinge, ou nos absolverá ou irá nos engolir no mar da mediocridade.

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