Sobre o fetiche do livro

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Talvez o maior obstáculo para a leitura digital seja o argumento de que “nada substitui o livro impresso”. Muitas pessoas com quem converso, mesmo algumas bem jovens, dizem que preferem livros de papel para “sentir o cheiro” do livro. Parece que o processo de leitura envolve mais que apenas ver o que está escrito nas páginas, mas também sentir essas páginas e… cheirá-las! É, eu mesmo já me peguei várias vezes cheirando livros
Talvez o maior obstáculo para a leitura digital seja o argumento de que “nada substitui o livro impresso”. Muitas pessoas com quem converso, mesmo algumas bem jovens, dizem que preferem livros de papel para “sentir o cheiro” do livro. Parece que o processo de leitura envolve mais que apenas ver o que está escrito nas páginas, mas também sentir essas páginas e… cheirá-las! É, eu mesmo já me peguei várias vezes cheirando livros (gosto particularmente do cheiro do papel couchê). Alguns livros velhos tem um cheiro especial. Há também os que cheiram a mofo e até são perigosos por isso.
Penso que a questão do objeto livro envolve sua unicidade e singularidade. Como cada livro impresso é único, uma pequena coleção de cem exemplares terá cem objetos diferentes para serem tocados, cheirados e vistos (e quem sabe, lidos…). Já um ereader com quinhentos livros será apenas um objeto, mesmo contendo quinhentos arquivos binários de livros diferentes. Nessa experiência de leitura o leitor perde a diversidade do objeto.

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Photo by Thought Catalog from Pexels

Gosto muito de pensar em termos de perdas e ganhos. Na vida é sempre assim. Algo pode ser melhor em alguns aspectos e pior em outros. Desenvolvendo o exemplo do paragrafo anterior, o ereader com quinhentos livros é obviamente muito mais prático para usar e transportar que a coleção de cem livros, mas certamente fica devendo em alguns aspectos táteis e sensoriais. Por outro lado, é mais confortável ler a Guerra e Paz ou o Senhor dos Anéis em um ereader. Já li diversos “livrões” no formato digital. Alguns eu nem tinha ideia de que eram tão grandes e só descobri depois que topei com a versão impressa nas livrarias. A coleção de cem livros, se for conservada de forma apropriada, pode durar por séculos.
Por outro lado, não sei quanto dura um ereader. Provavelmente uns cinco anos se for bem cuidado. Talvez menos que isso. Quase todos os ereaders que tenho (mais de dez) estão nessa faixa etária, exceto dois, aposentados, do início do século, que funcionam mas estão com baterias ruins. Claro que os arquivos dos livros (os ebooks) podem e devem ser guardados em mídias digitais. Isso vai demandar algum tempo e investimento. Mas conservar a pequena biblioteca de cem livros (e se fossem dez mil?) também gera algum custo. No mínimo uma ou duas prateleiras em lugar arejado, seco e livre da luz direta do sol são necessárias.
No caso dos livros digitais, o trabalho e custo para conservar e manter um único ebook é quase o mesmo que o de manter alguns milhares de títulos. E temos que pensar no ereader como a parte final da leitura, uma espécie de mesa especial onde você porá as páginas que irá ler. Quanto melhor o aparelho, melhor a experiência de leitura e assim pode ser que troquemos o fetiche do livro pelo fetiche do ereader… Ou ainda, pela experiência até então inédita, de carregarmos milhares de livros no bolso.

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