Está ficando difícil escrever sem distrações hoje em dia. Não é de agora que inventaram umas maquininhas engraçadas, minimalistas, para escrever textos. São uma espécie de “laptop sem distrações” para auxiliar no foco da escrita. Esse tipo de dispositivo é meio que uma máquina de escrever das antigas, só que sem papel. Grava um arquivo DOC, ou RTF, ou TXT. O maior problema é que esses aparelhos, como o Freewrite, só fazem isso, não navegam na internet (obviamente – sem distrações!) e não servem para mais nada, além de serem muito caros.

Pensando nisso, reativei um Thinkpad do começo do século para ver o que conseguia. Algo parecido com uma escrita raiz, como se fazia antigamente com as barulhentas máquinas de escrever. Eu me lembro de acompanhar, no começo dos anos 1990, a conversa de dois professores de história já com 50 +, da universidade onde trabalho, sobre as maravilhas da escrita no computador. O mais entendido, explicava ao outro que, quando se escrevia no computador, o texto ia sozinho para a outra linha, não sendo necessário o ajuste linha a linha das margens porque isso era feito automaticamente, dizia o primeiro professor, para real assombro de seu interlocutor (e riso meu). Essa característica é uma irrelevância para as novas gerações, mas eu me lembro de quantas vezes fiz alguns malabarismos para ajeitar o texto de modo a esse ficar corretamente alinhado à direita. Se o alinhamento a esquerda sempre era “grátis” nessas máquinas, o mesmo não se pode dizer do alinhamento à direita. Martírio constante dos datilógrafos. Quando você utilizava a máquina, já ia escrevendo e imprimindo ao mesmo tempo, porque, de fato, essa máquina escrevia no papel. Observe que eu acabei de usar um itálico na frase. Itálicos e quaisquer outros efeitos eram, ao menos nas máquinas básicas (grande maioria) recursos proibidos, inexistentes.
O velho laptop que eu revivi é um Thinkpad X100e, do início do século XXI. Possui dois gigas de memória, um HD digital (chip, não disco) de 120 gigas, e um processador AMD Athlon MV-40, monoprocessado, de 800mhz de frequência. Está em estado de novo e eu reformatei colocando o tal HD digital em lugar de um HD físico que vinha no aparelho e depois instalando o Windows XP 32 bits. Nesse ecossistema, o micrinho (tem tela de 11”) está rápido e eficiente. Pode escrever textos ou fazer cálculos complexos com o Excel. Mas seu hardware é inútil, imprestável para a internet atual, pois em 2026 a web vive de altas velocidades de transmissão e seus navegadores precisam de muito processamento e memória para a execução de instruções que, na maioria das vezes, estão além da capacidade dos 800MHz do velho processador Athlon. Fico pensando sobre o quanto disso é necessário se, com a configuração que tenho aqui, consigo velocidade e eficiência para diversas tarefas.

Claro que, para reviver esse computador, utilizei além do Windows XP, outros programas da época, como a edição 2007 do MS Office. Esta, se me recordo bem, é a última versão que ainda era compatível com o Windows XP. E, o Office 2007 foi um marco para a suíte de escritório da Microsoft, pois mudou totalmente o visual, acrescendo mais recursos e inaugurando o sistema de abas, em lugar aos antigos e clássicos menus, mas seu foco é, pasmem, apenas a construção de textos e layouts de página. Essa versão do MS Word, apesar de já ter quase 20 anos, é bem similar as atuais, faltando-lhe principalmente os recursos de interatividade com a internet e de Inteligência Artificial. Por falar nisso, eu que comecei no Word para Windows 2.0 de 1992, acho esses recursos de IA algo muito exagerado. Hoje você abre o Word e ele lhe pergunta “O que quer escrever”. Se o usuário digitar meia dúzia de palavras dizendo algo como “faça uma reclamação ao meu condomínio sobre o cachorro do vizinho”, é possível que ele escreva um texto com umas 500 palavras narrando seu sofrimento em aguentar aquele bicho latindo o dia todo. Ou se pedir para o Word escrever uma carta de amor a sua namorada, citando grandes clássicos da poesia romântica, certamente teremos um compêndio brega e sem alma amarrando diversos estilos e versos explicando o quanto você a deseja.
Tudo isso é no mínimo bem estranho. Acho que processador de texto deveria ser somente isso, um artefato para receber os textos que forem sendo inseridos, letra a letra, utilizando-se o teclado e dedos. E com os dez dedos, que eu fiz datilografia em 1980.

No passado, os comparatistas, estudiosos da literatura mundial, já haviam previsto ou percebido a crise da autoria, onde cada obra é sempre credora ou devedora de muitas outras. Assim, uma história geralmente é a “reescrita” de outra, ou outras anteriores. Pelo menos, essas “reescrituras”, termo utilizado por esses estudiosos, eram escritas porpessoas. Hoje, esse conceito foi extravasado ao inimaginável. As IA generativas ou LLMs são como remasterizadoras de sucos narrativos, onde a história é reprocessada a cada solicitação feita à máquina. É como se toda informação possível estivesse boiando, ou diluída em um grande caldo léxico e, ao pedido do usuário, reescrita aleatoriamente. Hoje, para escrever uma história, você não precisa mais gastar horas na frente de uma tela. Basta digitar um comando sintético, sem expressão e extremamente descritivo, o prompt. É esse “prompt” que agora define o talento de muitos nas mais diversas áreas: escrita, programação, ilustração, diagramação, gestão e sei lá o que mais. Aí está o grande truque: IA significa não criar, mas simular, parecer inteligente.
Mesmo assim, é curioso observar como a tecnologia evoluiu para facilitar o nosso cotidiano, ao ponto de tornar (sic) o ato de escrever quase automático. Por outro lado, essa facilidade pode afastar o usuário da experiência mais tátil e reflexiva da produção textual, aquela que exige atenção e envolvimento com cada palavra digitada. Talvez, no fundo, a simplicidade das antigas máquinas de escrever ainda tenha algo a nos ensinar sobre foco e disciplina no momento da escrita.
Leitor, por favor, desconfie do que lê. O parágrafo anterior foi o Word IA que escreveu. Eu copiei o texto que havia escrito até o parágrafo anterior em um pendrive e o trouxe aqui para o computador moderno que estou usando e dispõe do novo MS Office 365. Logo ao abrir o arquivo, um símbolo parecido com uma caneta com estrelinhas perguntou se eu queria “reescrever” ou “continuar o texto” malandramente escolhi “continuar o texto” para ver no que ia dar e, óbvio, saiu besteira. Clarice (Lispector), pela voz de uma personagem sua, disse uma vez que “escrever dói”. Então, como pode a máquina tornar a escrita automática? Depois até que a LLM do Word tentou remediar, insinuando que a escrita verdadeira é um ato físico, não de comando algoritmo. Se você notou qualquer diferença entre o parágrafo anterior com os demais, parabéns! Você ainda tem humanidade suficiente dentro de si para diferenciar um texto legítimo de um feito por máquina. Eu, contudo, confesso que me assusto com essas coisas. Não acredito que “a tecnologia evoluiu para facilitar o nosso cotidiano” como a IA disse, a tecnologia apenas evolui. E nessa mudança, pode atropelar e eliminar quem estiver na frente e for resistivo a ela. Ou formamos milhões de exilados digitais, ou idiotas incapazes de diferenciar uma rosa de um amontado de plástico, ou um poema de Manoel de Barros de um monte de lixo léxico gerado aleatoriamente por IA.
No fundo do quintal nasce um verbo torto,
Pedra conversa baixinho com a folha caída.
Invento passarinhos de silêncio e vento,
E faço do inútil a essência da vida.
Pedi para esse diligente Word escrever um pequeno poema de quatro versos ao estilo de Manoel de Barros. O resultado é o que apareceu nas quatro linhas anteriores. A seguir, um fragmento de Poema obra do verdadeiro Manoel.
A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Imagino que seja covardia convidá-los a comparar as duas peças. Talvez apenas os leitores realmente treinados possam perceber que o primeiro é apenas a junção de quatro versos desconexos, utilizando-se de palavras facilmente encontradas na obra desse grande poeta. Já o segundo trecho é o começo, os quatro versos iniciais do citado Poema e constituem uma sequência léxica com sentido.

Outra função dessa nova geração de processador de textos com IA, ao menos para gente como eu, que pensa saber escrever, soa como quase ofensiva. O recurso “estruturar e refinar” permite reescrever o seu texto, de modo a torná-lo “melhor”(?). Francamente, dispenso a cortesia. Mas não para por aí. O MS Word possui ainda o recurso “Editor” que dá notas para o que você escreveu. Que maravilha! Agora posso saber se teria alguma chance na redação do ENEM, caso almejasse uma nova graduação tardia. Por falar nisso, o tal “Editor” me deu 99 pontos em 100 possíveis. Longe de ser ruim, mas fui atrás de onde estava o “1” por cento da discórdia e o erro estava justamente no infame parágrafo escrito pela IA! Deixei lá errado, o erro não foi meu. Não tenho nada com isso!
Como já afirmei, convivo com as gerações de MS Word desde que elas eram apenas destinadas a facilitar o ato da minha escrita, e não a competir comigo para ver quem escreve melhor ou, pior, escrever verso baratos ou qualquer outro tipo de amontoado léxico aparentemente erudito. É por isso que sinto saudades do velho MS Word 2.0. Mas ele não existe mais, assim como não temos mais trens de passageiros em Mato Grosso do Sul ou um bom restaurante com vista para pousos e decolagens no aeroporto de Campo Grande. Uma pena.
Eduardo Figueiredo, verão de 2026.

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